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Entenda por que casais que ficam com outras pessoas nem sempre têm relacionamentos livres

Relacionamentos não tradicionais podem ser diferentes entre si. Investigamos a história por trás da monogamia e como funcionam os novos formatos de relações nos dias de hoje 


Por Amanda Grecco


Quase todo mundo conhece um casal que tem o costume de conhecer outras bocas, corpos e amores. Independente do combinado de cada um, costumamos colocar essas pessoas na caixinha do “relacionamento livre”, e, muitas vezes, não é bem assim.


Antes que você fique com preguiça e fuja deste texto com medo de ter que conhecer um alfabeto inteiro de nomes de relacionamentos diferentes para não ofender ninguém, aqui vai um aviso: este texto não se trata de construir paredes, mas de derrubá-las e ter ainda mais espaço para se jogar naquela vontade apertada de experimentar outros sabores por aí. Hmmmmm, de-lí-ci-a!


Vem entender como é essa turma tem pautado seus relacionamentos e expandido os territórios do amor.


A ascensão da curiosidade não-monogâmica


É só dar uma olhada nas redes sociais que é possível perceber a curiosidade sobre outros modelos de relação. O psicanalista Christian Dunker publicou no YouTube um vídeo intitulado “Não-monogamia e relacionamentos abertos” após a altíssima demanda do assunto por parte de seus seguidores. No Google, a procura por temos relacionados, como “não-monogamia”, “poligamia”, “relacionamento aberto”, e até perguntas como “como abrir meu relacionamento?” e “como não ter ciúmes?” aumentaram, em média, 43% nos últimos dois anos.


Essa onda talvez tenha uma explicação histórica. Em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, o escritor e teórico Friedrich Engels explica que a monogâmica foi inaugurada não pelo amor, mas pela proteção das riquezas. De acordo um trecho de sua obra, "através da união monogâmica, a função paterna passou a determinar a organização familiar e a continuidade da propriedade privada na mesma linhagem.” 


A partir disso, aprendemos a gostar de um modelo capitalista revestido de promessas românticas, mas que não têm dado muito certo. Isso explica o boom dos relacionamentos não tradicionais, afinal, a lúcida explicação de Engels não parece nada com o amor que realmente queremos após dois anos enclausurados pela pandemia de coronavírus.


Então, vem o relacionamento livre, que traz espaço para que o desejo aflore e seja vivido de maneira plena. Parece lindo, mas é preciso colocar uma lupa sobre essa receita já que nem tudo é tão fácil como pode soar a teoria.


Livre para quem?


Você pode nem imaginar, mas nem tudo é relacionamento livre, sabia? Isso porque “livre” pressupõe uma liberdade que foi tirada pela monogamia e será resgatada nesse novo modelo.


O psicanalista Sam Alcântara, que também vive um relacionamento fora dos padrões monogâmicos, observa em sua clínica muitos acordos diferentes. "Tem gente que pode ficar com outros, mas não pode deixar o parceiro saber; tem quem esteja proibido de beijar qualquer ser humano que tenha o mesmo DDD que o casal; e tem até combinados de 'somente está liberada a interação com outras pessoas se estiver ao alcance dos olhos do outro'", explica.


Assim como questionou Christian Dunker no vídeo citado acima: como é que essas regras compõem algo que se possa chamar de liberdade? Sam explica que o grande paradoxo está no fato de que a monogamia é o único parâmetro que a gente conhece para experimentar a não-monogamia. “Então, precisamos ir escalando, testando, abrindo aos poucos”. Ele conta que, no caso dele e de Sarah, sua parceira, o relacionamento foi aberto somente para ela por 6 meses para que pudessem avaliar se conseguiriam lidar com essa situação. Dado o sucesso da tentativa, a relação ficou aberta para ele também.


Camila Araújo é publicitária e está em um relacionamento não-monogâmico há mais de 3 anos. Assim como outros casais que estão esperando a volta das atividades sociais para saber como os combinados funcionarão na prática, ela diz que ainda não sabe ao certo se o ciúmes vai protagonizar na relação, mas que existem combinados que ajudam a dar mais segurança ao sucesso dela, como não poder se relacionar com amigos, não poder transar com pessoas conhecidas, ser proibido levar outras pessoas para a casa que Camila divide com seu namorado e não poder se apaixonar. Difícil essa, hein?


Com tantos “pode, mas não pode”, como a gente faz para controlar o desejo, essa coisa que invade o pensamento e nos enche de tesão? Pois é, não controla. Porque a verdade é que, por mais fortes e verdadeiros que sejam os vínculos, você não controla o desejo do outro, assim como ele não controla o seu. 


A dica aqui é tentar refletir sobre seus próprios sentimentos e sensações dentro do relacionamento. Posso, insegurança, controle e rejeição são temas que valem ser tratados com muita atenção em terapia e análise. 


Amor fora da caixa


Conversando com Sam sobre os tipos de relacionamentos que transcendem as barreiras, falamos sobre os casais que saem juntos com outras pessoas, conhecidos como “casais liberais”; os que abrem a relação só de vez em quando, os “monogamish”; os que realmente vivem mais de uma relação amorosa, os "polígamos”; os que ficam com outras pessoas separados um do outro, conhecidos como “abertos”, e entendemos que, na verdade, criar categorias pode diminuir a potência dessas relações se não houver cuidado.


“Tudo que foge aos padrões é novo e tem uma particularidade específica, sendo necessário tratar de forma individual as singularidades de cada relação. Entretanto, criar categorias pode ajudar a trazer a referência universal para que outras pessoas também se identifiquem e, a partir dessa referência, possam fundar sua própria forma de se relacionar”. 


E aí surgem também os não-monogâmicos que, assim como os administradores página @afetosinsurgentes, estudam a fundo a teoria da não-monogamia, estabelecendo bases estritamente não-românticas para qualquer relacionamento. Uma curiosidade grande é que os não-monogâmicos, ou NM, como eles dizem, não são muito fãs de quem tem relacionamento aberto, já que esse modelo parte de uma parceria forte entre um casal que se abre para ter relações desde que não abalem a estrutura do casal. 


Sam questiona essa rigidez, já que qualquer relação é capaz de causar traumas. “É uma posição conflitante porque, mesmo com um pacto monogâmico, eu posso me machucar e não existe forma de prevenir isso”. 


Conclusão: lealdade é a chave 


Se você leu ou assistiu à peça “A Alma Imoral”, de Nilton Bonder, deve se lembrar das reflexões sobre lealdade, fidelidade e traição. Se você é fiel a um contrato monogâmico que não lhe faz bem, pode ser interessante questionar qual o nível de lealdade que está tendo consigo, com seus desejos e sentimentos.


“A gente está o tempo todo flertando com a quebra de contratos, então não seria mais honesto poder falar sobre quais deles queremos, ou não, para a nossa relação?”, questiona o psicanalista Sam Alcântara.


Para trazer criatividade ao seu relacionamento, Sam explica que tentar despersonalizar afetos é um bom exercício para falar sobre o tema sem sentir culpa ou medo quando o outro compartilha os desejos contigo. “Poder escutar sobre os sentimentos do seu parceiro sem ser o centro do universo é fundamental para firmar uma relação de parceria e sinceridade a partir de um lugar de escuta e de segurança”.


Clique aqui e leia um relato de quem tem um casamento livre.


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