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Como aprendi a ter um casamento liberal e o que aconteceu depois

Um depoimento real sobre novas formas de se relacionar – e amar – hoje 


Por Amanda Grecco


Era noite de sábado e eu tinha trabalhado o dia inteiro. Estava exausta, mas resolvi fazer uma forcinha para encontrar o Rodrigo, o homem com quem eu estava saindo há algumas poucas semanas. Fomos a um bar com alguns amigos dele e, assim que ficamos sozinhos em um cantinho, ao som de um samba, com um copo de cerveja na mão e encostados em um carro de dono desconhecido, ele disse: "Então, tô pra te falar uma coisa há um tempo. Não acredito nesse relacionamento tradicional que todos seguem... E se a gente pudesse criar nossas próprias regras?"


Após outras frases que saíram da boca dele enquanto eu, cada vez mais, franzia o cenho e apertava os olhos, entendi que Rodrigo estava me propondo algo como um relacionamento não-monogâmico. Aquilo tudo era muito estranho para mim. Não entendi nada do que ele falou, mas não gostei. Fiz meu drama e fui embora.


Em um espaço bem curto de tempo, refleti sobre relacionamentos. Pensei sobre os incontáveis casos de traição que rendem histórias tristes, sobre os desejos que viram culpa, sobre os relacionamentos divertidos que, em algum momento, se transformam em correntes difíceis de arrastar ou desatar. Voltei.


Quando encontrei o Rodrigo de novo, ele estava em prantos e eu não entendi nada. E logo dou um spoiler: ele, que hoje é meu marido, sofre de engasgo de choro. Rodrigo fica todo entupido porque não consegue deixar as mágoas escoarem. O que eu quero dizer é que eu sei como a minha recusa para conversar sobre a proposta dele o machucou.


No dia seguinte, batemos um papo bem legal. Eu entendi que falar sobre a possibilidade de desejar alguém não é falta de amor. Precisa de muita coragem e confiança para ter uma conversa franca! Falamos sobre o que acreditamos como relacionamento, o que já testamos e não deu certo e, mesmo sem um rumo nítido, ficou combinado que a gente poderia falar sobre tudo o que quiséssemos fazer. Mesmo que ainda confuso, embarquei.


Fomos morar juntos em cinco meses. Dois meses depois, veio a pandemia. Aquele relacionamento que prometia um monte de aventuras (não sei quais, mas na minha cabeça era assim) ficou salpicado do medo pungente que esse momento difícil despertou.


Com o tempo, comecei a sentir algumas crises de ansiedade. Na verdade, muitas. O Rô também não ficou bem. Foi demitido logo no começo da pandemia e estava um pouco perdido. A rotina ficou instável, mas querendo tentar viver um pouco do que a gente tinha proposto no início, começamos a marcar alguns encontros via aplicativos assim que os casos de coronavírus começaram a baixar.


Saímos com algumas mulheres. Eu, que já tinha tido algumas poucas experiências bem médias com mulheres, descobri que o mundo pode ser bem menos hétero, bem menos rotulado do que eu pensava. Mas o ciúme batia com força na minha cabeça e essa relação de prazer e dor me era bastante esquisita. Eu e o Rô nos desentendemos algumas vezes. Os nervos estavam à flor da pele, a ansiedade, por milhões de motivos, martelando forte, e aquele combinado de podermos conversar sobre tudo o que quisermos virou um peso para mim sem que eu percebesse, porque, na verdade, eu não queria conversar sobre nada além de sobreviver de corpo e alma – mais de alma do que de corpo – à pandemia... Mas não soube falar.


É importante contar sobre a parte difícil porque nem tudo são flores. Foi uma construção trabalhosa, e por bastante tempo eu achei que pudesse estar fazendo algo errado, escondido, fadado ao fracasso. Vivi uma fase confusa de não saber exatamente o que era desejo meu e o que era desejo dele, mas a gente foi falando sobre isso tudo e construindo uma reciprocidade terna e divertida.


Eu descobri que posso dançar de olhos fechados na frente dele sem sentir nada de vergonha, posso falar sem me preparar, posso descobrir quem eu sou e ajudar ele a descobrir quem é sem ter receio de decepcionar ou querer escapar. Esses dois anos de pandemia permitiram que a gente construísse um mundo em que os dois não precisam ter medo um do outro. Parece óbvio, mas não é.


Acontece que, com terapia e mais disponibilidade para que as longas conversas aconteçam, a gente entendeu que esse modelo de casamento livre funciona para nós. Fizemos uma grande revisão de tudo o que vivemos e ajustes vieram. Falei sobre alguns desconfortos, sobre querer sair com homens também. Discutimos sobre alguns pontos indigestos, outros excitantes. Falamos e ouvimos. Acho que foi com o afrouxar do isolamento que inauguramos um momento mais claro – e alegre – da nossa relação.


Desde lá, alguns combinados vão e voltam, mas o precedente é estarmos juntos em todas as situações. O nosso combinado funciona mais ou menos assim: sempre que um de nós sentir desejo por alguém, conversamos sobre isso e decidimos juntos o que fazemos com ele. Às vezes, esse combinado acontece só com uma troca de olhares. Por exemplo: estamos em algum lugar e ele me fala “Amor, viu o bonitão que tá te olhando?”, eu respondo que vou lá conhecer o rapaz, ele sorri e já sabemos que está tudo bem. E assim a gente vai brincando, vai explorando e vai crescendo no amor e na parceria.


Diferente do que muita gente pensa, nossa festa particular não é uma confusão. O fato de podermos interagir com outras pessoas afetiva e sexualmente não permite, ou não deveria permitir, que comentários ofensivos e investidas desrespeitosas sejam feitos. Infelizmente, até agora essa jornada tem sido um pouco solitária porque quando tentamos compartilhar um pouco do que estamos vivendo, ouvimos comentários chavões como “Nossa, vocês são loucos”, ou “Eu não ia conseguir, sou muito ciumento”, e dificilmente a conversa segue com alguma riqueza.


Estamos descobrindo que esse mundo do casamento aberto é bem complexo. Tem a galera fetichista do swing (troca de casal), os casais que só pegam outras mulheres e a mulher da relação fica nitidamente entediada, os casais que saem sozinhos e não contam ao outro o que rola, os que contam tim-tim por tim-tim, e os que, como nós, não tem muita burocracia por entender que o afeto e o desejo são vivos, e que vamos precisar lidar com eles todos os dias se quisermos que nosso relacionamento siga caminhando com alegria.


É claro que temos nossas regras e combinados e sempre tem que haver muita, mas MUITA disposição para conversar! E às vezes, mesmo assim, acontece algo e alguém fica incomodado, mas quem nunca? Já que não dá para controlar ou prever o desejo, aprendemos a brincar com ele, e essa experiência tem trazido um nível de excitação entre nós dois que é bastaaaante divertido.


Pensando em todas as questões que podem eclodir dessa complexidade que é um relacionamento, essas são as que a gente escolheu que quer ter, e somos felizes assim. Eu sendo eu, sem me sentir depravada, sem querer ser santa, hétero ou qualquer outra coisa que me trouxe confusão ou sofrimento. Ele sendo ele, podendo falar sobre tudo o que existe dentro e que é difícil dar vasão, sobre a beleza de ser o homem que ele escolhe ser e sobre o que mais a gente quiser porque é assim que queremos continuar sendo: com afetos que trazem potência, como já explicou o filósofo holandês Baruch de Espinosa há mais de 400 anos.


Não é fácil nadar contra a corrente da monogamia romântica, mas eu garanto que o mar é bonito do outro lado e a travessia é mais fácil em dupla (ou trio, ou o que você quiser!).


Bom namoro para todos nós.


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